António Valdemar

Crítico de Arte e Vice-Presidente da Academia Nacional de Belas-Artes, laureado com a medalha de honra da Sociedade Portuguesa de Autores.









A representação dos símbolos predomina através dos quadros desta exposição de Hélio Cunha, que se fixa no mistério da sabedoria oculta, no enigma do ser, nas conexões do sagrado com o quotidiano.
Estamos perante elementos identificadores dos heróis lendários que procederam a conquista de Portugal, às lutas pela independência, à descoberta de novos mares, novos céus, novas estrelas. E, também, dos apelos proféticos de raiz messiânica que tiveram expressão nos diversos ímpetos do sebastianismo, no itinerário da quimera, do mito, da predestinação e da loucura que Fernando Pessoa consagra na Mensagem.

Todavia, Hélio Cunha, embora circunscrito a determinados valores do imaginário nacional, alarga o campo de investigação plástica, no jogo de figuras, sinais e energias cromáticas, aos fundamentos que deram razão de ser ao mundo antigo e se mantiveram, sob outras formas e esquemas conceptuais, em sucessivos quadros de civilização e cultura.

Para Hélio Cunha a esfera constitui uma alegoria de totalidade, da universalidade das coisas, mas a cruz, por exemplo, não se limita à emblemática inscrita nos castelos, naus e templos edificados do Minho ao Algarve, de Trás-os Montes ao Alentejo, nas Ilhas Atlânticas dos Açores e da Madeira e nos territórios de África e do Oriente. Intervém como mediador entre o visível e o invisível, funciona como essência dos contrários; retém e destroi o livre movimento. Possui uma acção ordenadora que é a antítese da serpente ou dragão que traduz o dinamismo primordial, anterior ao Cosmos.
A linguagem dos símbolos, na multiplicidade das leituras que sugere, desvenda os reinos da analogia e das correspondências; mostra os laços que, por um lado, unem o leão, o sol, o ouro, o sangue, o fogo, e, por outro lado, o gato, a lua, a prata, a linfa, a água.

Dentro de uma sistematização tanto quanto possível unitária, com pormenores contrastantes, a actual pintura de Hélio Cunha propõe, nas suas componentes genéricas, o encontro do Mediterrâneo com o Atlântico, de Eros com Thanatos, na relação conflitual do apolíneo com o dionisíaco.

1988