Eurico Gonçalves

Pintor, Crítico de Arte e Membro do Conselho técnico da Sociedade Nacional de Belas-Artes. Prémio Almada Negreiros 1998











Ao tentar indagar sobre a dimensão onírica do objecto representado na pintura de Hélio Cunha, gostaria que esta minha abordagem não se cingisse à mera descrição dos elementos figurativos que a constituem, embora reconheça nem sempre ser previsível a relação lógica e lúdica que estabelecem entre si. É, aliás, o objecto, deslocado do seu conteúdo habitual, o que mais surpreende na concepção meticulosa desta linguagem metafórica, totalmente encenada, como se de um palco se tratasse.

Tudo se objectualiza na pintura onírica de Hélio Cunha, construtor de espaços cenográficos que, perspectivados, nos remetem para a noção do que está próximo e se destaca, nítido, rigorosamente definido, no primeiro plano, enquanto que o que está longe se dilui parcialmente na névoa de horizontes infindos.

Em cenários de luz e sombra, a perspectiva define e indefine a diferença de escala porque, quantas vezes, o que está longe, sendo pequeno, se torna subitamente grande, e o que está perto, sendo grande, se torna pequeno. Neste jogo de ambiguidades, aparentemente contraditórias, o pintor é exímio a desafiar a lógica das proporções.: opacas bolas brancas de ténis, numeradas como as de bilhar, contracenam com o fulgor sensual do nu feminino de onde brotam cinco cabeças de serpentes; no mesmo cenário, verdadeiras esculturas de metal e de pedra tanto são estruturas simétricas como sólidos vultos humanos.

Noutros quadros a mão gigantesca emerge ténue ou azulada no horizonte longínquo, ou ressurge carnal ou vermelha, no primeiro plano, pegando na ponta dos dedos um fósforo aceso, cuja chama ilumina o olhar do sonhador, que vislumbra fantasmas na noite obscura, bem como colossais cabeças humanas, a insólita presença de um elefante e fascinantes esferas de luz, eventuais luas que, noutros quadros, são sóis, pérolas ou lágrimas transparentes, múltiplas bolas de cristal, invadindo ludicamente o espaço, como os berlindes da nossa infância.
Em Coração de Cristal, a esfinge verde permanece estática, olhando fixamente o infinito. O peixe fora de águia é um brinquedo de criança. O tronco humano adquire a consistência e a dureza da rocha. O imensamente grande figura ao lado do infinitamente pequeno, numa desproporção intencional, que evoca Dali.

Na imagética surreal de Hélio Cunha, também a visão paranóica se concretiza, quando vemos os cabelos de uma mulher transfigurados em peixes, e quando, em trompe-l’oeil, tudo parece ser o que é e o que não é, na visão dupla da mesma imagem.
No modo arbitrário como os elementos se conjugam, tudo é possível e aparentemente perfeito na própria desconexão, que o pintor deliberada e escrupulosamente assume, desde o mais ínfimo pormenor até à mais complexa concepção global da imagem.
A mulher-tesoura, a mulher-objecto, a jovem nua ou a dama requintadamente vestida quantas vezes associa o desejo de amar ao desejo de ser mãe.

Ondulantes perfis femininos se recortam em chapas de aço azuladas, onde também se recorta o perfil do persistente coleccionador de imagens, presumível auto-retrato do pintor, discreto e sumariamente referenciado.
Neste mundo mágico de elementos emblemáticos, fixados para sempre na memória visual, ressalta o imobilismo hipnótico em cenários onde a luz atenua a rigidez dos contornos dos objectos-personagens, que, por seu turno, projectam sombras que se alongam em extensas e infindáveis planícies.
Neste teatro imaginário, os objectos-personagens, esculpidos em pedra, em metal e em vidro, apropriam-se do espaço envolvente, como peças de um puzzle enigmático, que aceita todas as combinatórias e alternativas, em diferentes contextos, que a rigorosa e quase obsessiva determinação do autor proporciona, numa constante relação com o carácter imprevisível da lei do acaso, que o sonho acentua e enaltece.


2008