Edgardo Xavier

Membro da Associação Internacional de Críticos de Arte e
anteriormente Director da Galeria Tempo










Situado entre parâmetros vivenciais que potenciam a criação surrealista tal como a entendiam Salvador Dali, René Magritte ou o próprio Duchamp, Hélio Cunha cultiva uma pintura que, partindo do real transformado, toca a essência das coisas para reflectir a sua interioridade a um tempo sensível e forte.

As suas imagens, ricas em pormenor, constroem mundos que a leitura, aparentemente fácil, torna fascinantes. São sempre universos insólitos nos quais o clima não só exalta a solidão como, através de múltiplos símbolos, também a justifica. Dir-se-ia que um certo comprazimento sublinha a necessidade de nos fazer partilhar porções menos ortodoxas de uma realidade para o autor importante. Exactamente por isso, Hélio Cunha apenas nos permite a visão de lugares que o rasto dos mitos deixou como habitação própria dos deuses. Ali os acharíamos etéreos, intemporais e quase só fragrância se nos fosse permitido entrar no cerne dos espaços que Hélio Cunha concebe inacessíveis a partir do primeiro plano das suas composições.

Aquelas divindades, duendes ou simples evocações carregadas de sentido poético, traduzem as várias vertentes de uma verdade a que só podemos chegar de mão dada com Freud, Jung ou Wilhelm Reich. São seres imateriais que a imaginação do pintor por vezes arranca aos abismos da legenda clássica para utilizar como sinalética de uma comunicação pela qual ele próprio se revela e se esconde. Tal é o caso de Ícaro, em chamas, caindo sobre uma outra Ilha de Páscoa na tela que intitulou Alegoria, ou, como em Flecha, a presença de um cúpido adulto e misterioso, ali símbolo de amor ideal ou indefinido. As alusões não param, no entanto aqui. Prolongam-se, sensuais, na quase omnipresença dos megalitos fálicos em perfeito diálogo com a espiritualidade mais pura.

Uma vez por outra o autor põe em confronto conceitos opostos de que é exemplo significativo a tela Caracóis Emplumados na qual as elipses pétreas, densas e numericamente cabalísticas se opõem às plumas, símbolo de uma fragilidade que remata, de modo paradoxal mas harmónico, todo o conjunto de elementos postos em presença.
Atitude semelhante se percepciona em O Quinto Dia da Criação, obra que possui no peixe negro o seu centro óptico. Assim, mudando os processos, codificando a linguagem ou graduando a intensidade e o rigor das mensagens, Hélio Cunha recorre ao surrealismo simbólico para nos transmitir, em plenitude, a força e a determinação da sua autenticidade. É em seu nome que este artista plástico depura os temas apresentados legando-nos apenas o essencial significante que integra em composições acertadas, de coloração sóbria. Abdicando de antigas trajectórias de pendor mais académico, esta fase do seu trabalho constitui importante conquista rumo a uma autonomia de discurso que aposta, também, na modernidade coerente.
Registando com crescente liberdade, o melhor da sua imaginação, por vezes fulgurante, Hélio Cunha afirma-se como um dos valores da nossa jovem pintura.


1991