António Victorino de Almeida

Maestro e Compositor











Ninguém deverá ser apelidado de ignorante, nem acusado de falar sobre o que não sabe - seja em que ramo for da actividade artística - se apenas se pronunciar de acordo com a sua sensibilidade, assumindo o puro subjectivismo das suas opiniões para afirmar que este ou aquele trabalho o impressiona ou não favoravelmente.
É dentro deste princípio que aceito pronunciar-me acerca da pintura de Hélio Cunha e tentar efectivamente exprimir qual o tipo de emoção estética que ela desencadeia na minha sensibilidade.

Em primeiro lugar, acho que a cor é tratada por este artista dentro de um critério estético perfeitamente semelhante àquele com que determinados instrumentadores ou orquestradores encaram o fenómeno do timbre que muitos apontam, e penso que bem, como a equivalência sonora da cor...
Os contornos da forma desempenham sempre uma função importante, cabendo-lhes em grande parte - por mais figurativa ou abstracta que seja a linguagem da pintura - a responsabilidade de contar a história que, em meu entender, está inevitavelmente subjacente a toda a mensagem estética.
Com efeito, a transmissão de uma mensagem, seja ela qual for, nunca deixa de narrar algo, seja uma situação concreta da vida real ou ficcionada, um sentimento pessoal ou colectivo, um estado de espírito ou um ideal.

Por detrás de qualquer artista – músico,  pintor, escultor, poeta, cineasta  - está sempre um contador de histórias, e um dos aspectos mais fascinantes de toda a obra de arte está na decifração da linguagem preferencialmente escolhida pelo autor para contar a sua história.
Nalguns casos, pensa-se que a linguagem é absolutamente directa - caso de uma boa parte da chamada pintura figurativa -  mas, eu creio haver uma larga dose de imprudência por parte do observador, se acaso julgar que as coisas são exactamente o que parecem ou transparecem das imagens da tela...
Muito pelo contrário, julgo que a obra de arte envolve sempre um qualquer enigma que nos compete decifrar, como o X das expressões numéricas da matemática.

Seja numa partitura, num mural, numa pedra esculpida, nas páginas de um livro, na expressão corporal de um bailado ou nas imagens de um filme, a mensagem transmitida corresponde efectivamente a esse X que é igual àquilo que cada um sentir ou concluir, depois de percorrer o caminho - por vezes longo e nem sempre fácil - da análise e apreciação da obra.
A manifestação artística que imponha antecipadamente ao público o significado ou o valor a que esse tal X corresponde, está condenada a constituir uma banalidade da qual, mais cedo ou mais tarde, nos cansaremos, como acontece com a chamada arte decorativa, com a música ambiente, ou, talvez em termos mais pejorativos, com a literatura de cordel...

Em meu ver, portanto, há um mistério - tal como também há a necessidade  de  o  decifrarmos -  que  está   na  base  de  toda    a  verdadeira arte,  e é ele que confere ao público uma função activa no fenómeno artístico, estabelecendo o seu diálogo cultural com o artista.
Sem esse diálogo, a arte é apenas uma habilidade, resume-se a uma questão de mais ou menos   jeito   para   juntar   sons, palavras ou cores, pois  o significado do   X   está antecipadamente definido e imposto - e o público transforma-se numa entidade meramente passiva: de observador e analista passa a simples consumidor.

Por aquilo que conheço da linguagem estética de Hélio Cunha, a história implícita - mas não explicita - em cada um dos seus quadros é-nos muito essencialmente contada pelo jogo das cores, tal como em Ravel, por exemplo, são os timbres que se acumulam e entrechocam ao longo de uma partitura para nos contar uma história chamada Bolero...
Dirão alguns que a palavra Bolero se limita a exprimir uma determinada dança ou um determinado ritmo e não contém elementos suficientes para contar seja que história for... E o mesmo dirão, provavelmente, da arte abstracta, onde muitos sentem a falta de uma orientação mais concreta que lhes explique a que é igual o X...

Esquecem esses - ou ignoram - que apreciar uma obra de arte é como resolver uma equação numérica, com a assinalável e fascinante diferença em relação à ciência exacta da matemática de que, na música, como na pintura ou em qualquer outra arte, o valor de X é diferente para cada auditor, para cada observador ou leitor.
Aí reside um dos fundamentos da beleza e da própria grandeza da Arte como elemento de aproximação entre pessoas - porque é um diálogo - o que não aconteceria nem acontece, quando se trate apenas de uma manifestação de maior ou menor destreza física ou mesmo mental...

Obviamente creio ser inútil dizer a que corresponde a minha sensibilidade ao X contido nos quadros que conheço de Hélio Cunha, pois as minhas conclusões na matéria não terão qualquer correspondência - assim se deseja - na sensibilidade das outras pessoas.
Mas já posso ser objectivo quando afirmo que, no meu modesto entender de apreciador de pintura, o caminho para deslindar a expressão numérica e concluir o significado de cada quadro de Hélio Cunha - o valor do X contido na mensagem de cada um deles - está na análise das cores e da sua dança visual em permanente mutação.
Foi percorrendo esse caminho que não tive dúvidas em considerar que estamos perante um notável artista – e contador de historias - cujo melhor conhecimento a todos enriquecerá.


2000